Um informe militar sobre a natureza do negro

Apesar do fim da escravidão e da conquista de direitos formais de igualdade, os negros continuaram a ser discriminados dentro do mundo dos brancos norte-americanos Isso pode ser percebido no informe preparado em 1937 por oficiais da cúpula da Escola de Guerra do Exército dos Estados Unidos. O objetivo do informe era preparar as Forças Armadas para incorporar cidadãos negros ás corporações militares.

Individualmente, o negro é dócil, afável, bem-humorado, despreocupado e de boa natureza. Se injustiçado, torna-se teimoso e turrão, embora por pouco tempo. É despreocupado, irresponsável e conspirativo. Não suporta ser censurado e é melhor controlado através de elogios ou exposição ao ridículo. É amoral, mente e sua noção de ética é primitiva (...) De outro lado, o negro é alegre, leal e geralmente não reclama quando bem alimentado. Tem natureza musical e um marcante senso de ritmo. Sua arte é rústica. Ele é religioso. Adequadamente orientado, torna-se produtivo. É emotivo e pode ser levado a estado de grande exaltação e entusiasmo. Sua emoção é instável e sua reação imprevisível. 

(COTRIM, Gilberto. História Geral: Nova Consciência. 8°série. 1°ed. São Paulo, Saraiva, 2001. p.108. Apud: ARBEX, José Jr. A Outra América – apogeu, crise e decadência dos Estados Unidos. São Paulo, Moderna, 1998. p.45.)

Sociedade Livre

É claro que os defensores zelosos e leais do presidente e de suas políticas, bons cidadãos que nada fa-zem para atrair a atenção negativa dos poderosos, não tem qualquer motivo para temer o Estado de vigilân-cia. É assim em qualquer sociedade: é difícil para aqueles que não representam contestação alguma sejam alvo de medidas repressoras; logo, do seu ponto de vista eles podem se convencer de que a opressão na verdade não existe. Mas a verdadeira medida de quanto uma sociedade é livre não é a forma como ela trata seus defensores, mas como trata os dissidentes e outros grupos marginalizados. Mesmo nas piores tiranias do mundo, defensores zelosos estão imunes aos abusos do poder público. No Egito de Mubarak, quem saiu às ruas para exigir sua saída foi preso, torturado, abatido a tiros; quem o defendeu e ficou em casa quietinho, não. Nos Estados Unidos, quem se viu alvo da vigilância de Hoover foram os líderes da NAACP, os comunistas e os ativistas de direitos civis e anti-guerra, não os cidadãos bem comportados que se calaram diante da injustiça social. 

(GREENWALD, Glenn. Sem Lugar Para se Esconder: Edward Snowden, a NSA e a espionagem do governo americano. Tradução Fernanda Abreu. [Rio de Janeiro, 2014] p.92) 

Racismo

Os escravos eram vistos como pessoas sem raízes, pessoas sem terra, alienadas de seu país. Ou seja não tinham direitos de nascimento, e eram considerados como pessoas que tinham sido arrancadas de outra sociedade sem serem socializadas na nova. Então, por assim dizer, estavam socialmente mortos. E eram vistos como pessoas sem honra, o que é uma condição degradante. Para o senhor de escravos, isso significa um poder absoluto sobre o escravo. Independente do que diziam as leis, tinham direitos de vida e morte.
 
(...)

A América do Sul é muito complexa e fascinante. É diferente, mas não necessariamente melhor. É fácil ser enganado pelo sistema porque lá se vê negros e brancos misturados entre os pobres, mas isso não ocorre nos EEUU. Porque o que os EEUU fizeram a “Lei da Única Gota” foi encorajar um sentido de solidariedade entre os brancos como forma de separá-los dos negros. E a razão pela qual nunca houve solidariedade entre a classe operária na América foi pela “Lei da Única Gota”, e o sistema binário de raças foi uma ferramenta poderosa para dividir as classes operárias e os brancos dos negros. E quando mais nos aprofundamos no sistema, quanto mais economicamente vulnerável e marginalizada a pessoa branca é, mais tende a ser racista porque é a única forma de ela ter algum status. Ela pensa: “pelo menos não sou negro”. Assim o branco pobre e o negro pobre são totalmente contrários um ao outro. Torna-se um perfeito sistema de divisão. A sociedade latino-americana é bem mais racista nas classes altas do que a dos EEUU. Os chefes militares brasileiros são completamente brancos. A elite política brasileira foi, até recentemente, completamente branca. Nos EEUU, quanto mais elevado se observa, por causa das leis dos Direitos Civis e etc. mais integrada é a população. E a elite politica americana esta completamente integrada. A Secretaria de Estado é negra, o grupo de líderes negros no Congresso é muito poderoso. A razão provável para isso foi a forma pela qual os afro-americanos  pegaram a “Lei da Única Gota” e a usaram para seus próprios fins para mobilização e solidariedade. Enquanto o Brasil manteve a “democracia racial” significando que o homem branco se deita com mulheres negras sem se sentir culpado, gerando crianças mestiças de grande beleza. Mas o sistema permanece perversamente desigual. O Brasil é a sociedade mais desigual do mundo ocidental. E os negros estão completamente no fundo da base. É um sistema pernicioso. É um Apartheid sem as leis do Apartheid. E no topo é absolutamente racista. 

(Professor Orlando Patterson [Departamento de Sociologia, Harvad], In: Racism, A history. (Produção e direção: Paul Tickell; Narração: Sophie Okonedo). BBC Four, 2007)

O Tigre

Tigre. tigre que flamejas
nas florestas da noite.
Que mão que olho mortal
se atreveu a plasmar tua terrível simetria?

Em que longínquo abismo, em que remotos céus
ardeu o fogo de teus olhos?
Sobre que asas se atreveu a ascender?
Que mão teve a ousadia de capturá-lo?
Que espada, que astúcia foi capaz de urdir
as fibras do teu coração?

E quando teu coração começou a bater,
que mão, que espantosos pés
puderam arrancar-te da profunda caverna,
para trazer-te aqui?
Que martelo te forjou? Que cadeira?
Que bigorna te bateu? Que poderosa mordaça
pôde conter teus pavorosos terrores?

Quando os astros lançaram os seus dardos,
e regaram de lágrimas os céus,
sorriu Ele ao ver sua criação?
Quem deu vida ao cordeiro também te criou?

Tigre, tigre que flamejas
nas florestas da noite.
Que mão, que olho imortal
se atreveu a plasmar tua terrível simetria?

BLAKE, Willian. The Tiger. Tradução: Ângelo Monteiro. Disponível em: http://www.casadacultura.org/Literatura/Poesia/g12_traducoes_do_ingles/Tigre_Angelo_Monteiro.html Acesso em 7 jan 2015

O rei, o sacerdote e o homem rico

Numa sala estão sentados três grandes homens, um rei, um sacerdote e um homem rico com o seu ouro. Entre eles está um mercenário, um homem pequeno, de nascimento comum e sem grande inteligência. Cada um dos grandes pede a ele para matar os outros dois. “Faça isso”, diz o rei, “pois eu sou seu governante por direito”. “Faça isso”, diz o sacerdote, “pois estou ordenando em nome dos deuses”. “Faça isso”, diz o rico, “e todo este ouro será seu”. (...) Quem sobrevive e quem morre?

É um enigma sem resposta, ou melhor, com muitas respostas. Tudo depende do homem que tem a espada.

– E, no entanto, ele não é ninguém – Varys concluiu. – Não tem uma coroa, nem ouro, nem o favor dos deuses, mas apenas um pedaço de aço afiado.

– Esse pedaço de aço é o poder da vida e da morte.

– Precisamente… E, no entanto, se são realmente os homens de armas que nos governam, por que fingimos que nossos reis têm o poder? Por que um homem forte com uma espada obedeceria a um rei criança como Joffrey, ou a um idiota encharcado em vinho como o pai?

– Porque esses reis crianças e idiotas bêbados podem chamar outros homens fortes, com outras espadas.

– Então são esses outros homens de armas que têm o verdadeiro poder. Ou será que não?

De onde vieram as suas espadas? Por que é que eles obedecem? – Varys sorriu. – Há quem diga que o conhecimento é poder. Outros, que todo o poder provém dos deuses. Outros, ainda, afirmam que deriva da lei. Mas, naquele dia, nos degraus do Septo de Baelor, nosso devoto Alto Septão, a legítima Rainha Regente e este seu sempre tão sabedor criado viram se tão impotentes como qualquer sapateiro ou tanoeiro da multidão. Quem você acha que realmente matou Eddard Stark? Joffrey, que foi quem deu a ordem? Sor Ilyn Payne, que foi quem brandiu a espada? Ou… outra pessoa? (...) O poder reside onde os homens acreditam que reside. Nem mais, nem menos.

– Então o poder é um truque de mímica?


– Uma sombra na parede – Varys murmurou. – Mas as sombras podem matar. E, muitas vezes, um homem muito pequeno pode lançar uma sombra muito grande. 

(MARTIN, George. A Fúria dos Reis. Tradução: Jorge Candeias. São Paulo: Leya, 2011. p.693, 739-740. (Crônicas de Gelo e Fogo v. 2)

A revolução de 1924: lembranças de Dona Alice

O texto abaixo é o depoimento de uma mulher que assistiu à Revolução de 1924.

Quando minha filha tinha seis meses mudei para o Cambuci, Rua dos Alpes; era uma casa modesta, quse em frente à fábrica onde Umberto trabalhava. Quando a menina completou um ano, era o dia 4 de julho; eu estava entrançando o cabelo e prendendo com grampos, para que ficasse armado, porque ia ao teatro à noite. Minha mãe chegou e disse: “—A cidade está cheia de soldados de carabina embalada, vai ter uma revolução”. O Umberto não acreditou. De fato, era a revolução.

Durante e noite, pelas duas horas da madrugada alguém bateu em todas as portas da Rua dos Alpes: “– Vai explodir o depósito de pólvora lá do Hospício”. (Esse Hospício devia ser lá na Rua Tabatinguera onde tinha um quartel.) Imagine crianças, mulheres com bebê, velhos doentes que não podiam andar, naquela procissão... Eu queria levar os brinquedos de minha filha, bonecas, bichinhos... Afinal juntei um pouquinho de roupa necessária e com Umberto, minha mãe, a menina, fomos pela Rua dos Alpes, atravessamos o Largo do Cambuci... e todo o mundo subindo como uma romaria, naquela madrugada, a Avenida Lins de Vasconcelos. Fomos para a casa de um amigo e à tarde, vendo tudo sossegado, voltamos para casa. Mas era de verdade a revolução.  

A gente nunca quer sair da casa da gente pra ir pra nenhum lugar, só quando já não pode ficar mais... acho que todas as pessoas são assim. Durante o dia, ouvimos os tiros de canhão, eu ia me aguentando e ficando mais um pouco. Mas quando foi um dia... o tiroteio se cruzava entre os soldados na Igreja da Glória e os outros, no depósito de pólvora, lá embaixo na Rua Tabatingüera. Eu morava no meio. Foi a Revolução do Isidoro Dias Lopes. Cortaram as luzes e de noite os tiros sacudiram a casa... e o barulho do canhão. Eu só tinha medo de morrer no escuro.

No dia seguinte disse: “—Vou embora, vou de carro de boi, carroça, mas vou sair daqui.” Os carros, quando saíam na rua, os soldados pegavam. Meu marido viu um carro parado em nossa rua, na porta de uns amigos, e pediu o favor que viessem me buscar com a menina. Fui para o Alto da Lapa, na casa de uma cunhada. Minha mãe foi para Nova Odessa. Quando saía fora de casa via o clarão, os estrondos.

Uns primos meus acompanharam os revoltosos e um deles desapareceu, deve ter morrido no combate. Muita gente morreu. Meu marido ficou em casa; para me ver, entrava na margem do rio Tamanduateí, onde havia uma calçadinha e andava até o Alto da Lapa. Vinha pelo mesmo caminho.

Quando voltei, minha casa tinha sinais de bala na parede, na cozinha. Outras casas foram saqueadas. 

(BOSI, Ecléa. Lembranças de Dona Alice. Memória e sociedade; lembranças de velhos. São Paulo: T. A. Queiroz, 1979. p. 64-65. Apud. CAPÍTULO 8: A República Velha: organização política. [S.l.: s.n., s.d] p. 119. Texto para Leitura).

O lazer em São Paulo no início do século

Nessa época as lojas da cidade tinham ganho outra animação, com frequência de mulheres fazendo suas compras sozinhas. A vida social em São Paulo intensificou-se. Após a proibição dos mergulhos no Tamanduateí e o aparecimento de clubes de natação e regatas ás margens do Tietê, o esporte tomou impulso. Por influência dos ingleses, foi introduzida o futebol, logo entusiasmando a população; apareceram as primeiras quadras de tênis e de bola-ao-cesto, e ganharam destaque as corridas de cavalo, em hipódromos recém-construídos. Aos domingos a principal distração do povo era ir passear no Jardim do Ipiranga, onde se divertia andando de carrossel, assistindo a teatrinhos de bonecos, participando de uma quantidade de jogos e competições. Ia-se a piqueniques, a sessões de circo, a concertos de bandas no coreto do Jardim da Luz, a reuniões dançantes em clubes recreativos, a espetáculos de teatro, de óperas, de operetas.

Como em todas as cidades do Brasil, havia o famoso footing, passeio a pé, numa rua ou numa praça – moça de um lado, rapazes do outro – trocando olhares, sorriso, bilhetinhos. Foram célebres no passado os footing da rua 15 de Novembro e da rua Direita. Várias confeitarias haviam-se tornado muito conhecidas, sendo ponto de reunião obrigatória para famílias inteiras, que lá iam tomar sorvetes, saborear doces e ouvir sua orquestra. Os frequentadores de teatro movimentavam á noite os restaurantes e os cafés, onde tomavam refrescos ou ceavam após os espetáculos. As livrarias mais importantes transformaram-se em local de encontro de escritores, jornalistas e estudantes, para gostosos bate-papos, comentários políticos e larga troca de idéias.


O progresso aumentou dia a dia quando novos hábitos e costumes, trazidos por onda crescente de imigrantes, vieram influenciar a vida paulista, tornando São Paulo o modelo de cidade dinâmica e cosmopolita, em contínua expansão. 

(HOLANDA, Sérgio Buarque de. História do Brasil. São Paulo: Nacional, 1977. p. 144-145. v.2. Apud. CAPÍTULO 9: Economia, sociedade e cultura na República Velha. [S.l.: s.n., s.d] p. 135 Texto para leitura.) 

A batalha de Itararé

A população de Itararé estava aflita. A cidade paulista, com menos de 7000 habitantes em 1930, era o caminho das revoluções: por ali passaram os revolucionários de 1893, 1922, 1924 e agora os de 1930. Começou com a evacuação da cidade. Nem os noventa praças que vieram de Itapetininga tranquilizaram o povo, que fugia. Dias depois concentravam-se na cidade 3000 soldados da Força Pública, 1600 do Exército e uns mil voluntários. Fizeram até um aeroporto e trouxeram quatro velhos canhões Krupp, da Primeira Guerra Mundial.  Tudo isso para tentar deter o avanço dos revolucionários.

O general Pais de Andrade chefiava essa tropa, que esperava o ataque dos revolucionários comandados por Miguel Costa – militar de prestígio, olhos de aço, guerrilheiro que dividia com Prestes as honras e a fama da liderança da Coluna – vinha com sete mil e oitocentos homens e dezoito modernos canhões Krupp.

Ali, em Itararé, armava-se a maior batalha moderna do país. Quando as forças se enfrentassem, a Batalha de Itararé envolveria o maior número de combatentes da nossa história em terras brasileiras: cerca de 15000 homens em uma única batalha.

Miguel Costa fez seu quartel-general em Sengés e dividiu suas tropas em quatro destacamentos. O coronel Silva Júnior comandava o primeiro, com 4300 homens. Ele faria o ataque frontal a Itararé. Flores da Cunha comandava o segundo, com 1600 homens, tentando uma pinça ao norte. O major Alexínio Bittencourt, era o comandante do terceiro destacamento, também com 1600 homens, que faria a mesma manobra de Flores da Cunha, pelo lado sul. E um destacamento de reserva, sob as ordens de Batista Luzardo, agiria onde fosse preciso.

Acontecia uma guerra de posições, com poucas trocas de tiros. O general Pais de Andrade mandava homens para Sengés, preparando um ataque. Miguel Costa lutava para colocar seus canhões numa fazenda, de onde liquidaria a artilharia do Exército. Tiros esparsos, barragens de fogo, de um lado e outro, para impedir o movimento de tropas firmando posição.

Mas ainda não era uma batalha. As tropas do governo tinham uma perigosa frente de 4 quilômetros e poucos meios de mantê-la, caso houvesse fogo concentrado. A luta por posições prosseguia. Os dois líderes militares entendiam do assunto: um e outro examinavam mapas, conferiam posições.
Ficou claro que as tropas de Miguel Costa poderiam varrer as posições de Pais de Andrade. Nas pequenas lutas morriam algumas dezenas de soldados. Era muito difícil defender Itararé. Miguel Costa chegou a 8 quilômetros da cidade. Mais um pouco, se ele quisesse, poderia, com seus canhões, destruir a pequena e simpática cidade. Só havia uma saída para Pais de Andrade: render-se; ou então avançar, num ataque suicida, tentando conter o inimigo. Ficando ali, imóvel, esperando, suas tropas seriam massacradas. Seus superiores em São Paulo eram informados sobre isso. Mas reagiam de maneira dramática:

“Defenda Itararé até a morte”.

Isso significava: “Não avance: espere e defenda-se”.  

Pais de Andrade resignava-se e esperava. Ele compreendia que Miguel Costa ia atacar. Seria um massacre.

Do outro lado, Miguel Costa sentia a vitória. Bastava dizer “Fogo!” e seria o fim de Itararé. Marcou o ataque para o meio-dia. Então uma estranha paz caiu sobre Itararé. Tensos, os soldados esperavam a batalha.

Eis que, às sete da manhã, vislumbrou-se uma bandeira branca. Ela vinha do lado dos revolucionários: Miguel Costa mandava suspender a guerra. Quem leva a bandeira era o deputado Glicério Alves, da coluna de Miguel Costa, acompanhado de clarins, numa cena dramática.
A mensagem era um ultimato: Miguel Costa exigia a rendição incondicional de Pais de Andrade.
– Nunca! – ele respondeu. Estava disposto a morrer com honra.

Então foi informado: toda a luta era inútil; o presidente Washington Luís fora deposto no Rio de Janeiro por tropas do próprio Exército Nacional. Pais de Andrade não acreditou e foi, pessoalmente, parlamentar com Miguel Costa. E obteve a plena confirmação dos fatos: a Junta Governativa, que tomou o poder no Rio, ordenou o fim das hostilidades.

Não aconteceu a batalha. Dias depois, um trem atravessou lentamente a cidade de Itararé. Nele estava Getúlio Vargas, que foi recebido com grande animação.


Não houve a batalha, porém mais de cem soldados morreram em Itararé. 

(CHIAVENATTO, Júlio José. A Revolução de 1930. (Coleção O Cotidiano da História). São Paulo: Ática, 1986. p. 25. Apud. CAPÍTULO 10: A revolução de 1930. [S.l.: s.n., 1980] p. 142-3. Texto para leitura).

Havia indústria no Brasil?

Antes da vinda de Dom João era proibido instalar indústria aqui. Dom João anulou essa proibição, mas assim mesmo nossa indústria não se desenvolveu. Vamos ver por quê.

Para instalar uma indústria, é preciso ter: dinheiro, máquinas, matérias-primas, mão-de-obra, energia, transporte e mercado consumidor.

Quando falta algum desses elementos, a indústria não se desenvolve. Se não houver dinheiro, por exemplo, como comprar máquinas e matérias-primas? Se não houver transportes, como levar as matérias-primas até a fábrica e os produtos industrializados da fábrica para os consumidores? Se a população não tiver dinheiro para comprar, que adianta produzir mercadorias? Se não houver energia, como as máquinas podem funcionar?

Você mora numa cidade pequena do interior? Se não mora, conhece alguma?

Você já reparou como algumas cidades possuem bem poucas indústrias? Por quê?

Se você analisar bem, verá que é porque, na região, faltam transportes, dinheiro, fontes de energia etc.

Na época do Primeiro reinado, o Brasil tinha vários desses problemas.

Como você já viu, havia bem pouco dinheiro no Brasil naquele tempo. E é claro que, sem dinheiro, não era possível importar as máquinas necessárias. Além disso, a Inglaterra dificultava a venda de máquinas ao Brasil, pois queria vender aqui seus próprios produtos industrializados. Isso acontecia, por exemplo, com a indústria de tecidos. O Brasil produzia algodão de boa qualidade. No entanto, a Inglaterra tinha uma indústria têxtil muito avançada e por isso conseguia produzir tecidos bem melhores do que os produzidos no Brasil. Além disso, não vendia ao Brasil os teares necessários para montar fábricas modernas.

Havia ainda o problema dos transportes. Naquela época, a pequena população do Brasil estava separada por longas distâncias, com poucos meios de comunicação. Não havia estradas de ferro, os produtos eram transportados geralmente no lombo de animais.

Faltava também mercado consumidor.  Grande parte da população era formada por escravos que, evidentemente, não tinham dinheiro para comprar mercadorias. Apenas um pequeno número de pessoas podia consumir produtos industrializados.

E a energia?

Você sabe que este é um fator importantíssimo para a indústria. Naquela época, as fontes de energia disponíveis no Brasil eram: lenha, vento, água e forças humana e animal. Não havia energia elétrica. As máquinas das fábricas eram movidas a vapor. Para aquecer as caldeiras onde se produzia vapor, usava-se lenha e carvão mineral. Lenha, o Brasil tinha bastante; mas carvão, que era o combustível industrial mais importante, é escasso em nosso território.


Por todos esses motivos, a indústria não se desenvolveu durante o Primeiro Reinado. 

(BELTRAME, Zoraide V. Estudos Sociais. São Paulo: Ática, 1987. p. 81-83. 6° série. Apud. CAPÍTULO 1: D. Pedro I governa o Brasil. [S.l.: s.n., s.d] p.32. Texto para leitura).

Quebrando as Regras


A TV ligada parecia não existir perante o tanto de problemas que inundavam sua mente, Carol, sua ex-esposa chegou ao restaurante.

A conversa fluiu entre uma bronca e outra, por mais que tentasse ponderar, o rumo era sempre tumultuado e cheio de cobranças pra cima dele, como: por que não foi no aniversário da filha, por que não compareceu no Natal.

Tentaria dizer que Papai Noel é um velho porco capitalista, inventado para explorar, mas ela logo falaria que tem uma filha, que não pode dizer que não entra no McDonald’s porque eles pagam menos para um funcionário, que na verdade a menina só quer um brinquedinho, que pelos precários meios de produção certamente está contaminado, ou ela acharia que uma fábrica chinesa que cobra centavos por um brinquedo tem controle de qualidade suficiente para evitar a contaminação, e ele insistiria que eles são feitos por chineses explorados e ela diria que ele é um pai de merda, que precisa de pensão, e ele diria que não tem vida própria, que tudo está indo de mal a pior, e a televisão diria que há rumores sobre a China, e alguém na mesa ao lado dá um pigarro, uma menina olha com os olhos gelados, a boca caída, as mãos fazendo movimentos repetitivos, ela era tão linda, alguém fala outra coisa, e é tanta coisa, tanta cobrança, ele dormia sozinho, comia sozinho, porra, ele transava sozinho, a boca dela mexendo, saindo perdigotos, caindo nele, o lugar é insuportável agora, e sua cabeça dói, ele xinga, não deu tempo dela nem olhar, a xícara voou na sua face, o café quente bateu, escorreu.

Ela soltou um grito, levantou, o café escorreu pelo vestido, mas eu fiz. Finalmente eu fiz, reagi.

Pigarro, peguei a xícara, fingi não escutar, o distrato, o café sendo jogado, o dinheiro pedido adiantado. Minha Carol indo embora, minha filha indo embora para sempre. 

FERREZ. Deus Foi Almoçar. São Paulo. Planeta, 2012, p. 61.  

O Peru de Natal

O  nosso primeiro Natal de família, depois da morte de meu pai acontecida cinco meses antes, foi de consequências decisivas para a felicidade familiar. Nós sempre fôramos familiarmente felizes, nesse sentido muito abstrato de felicidade : gente honesta, sem crimes, lar sem brigas internas nem graves dificuldades econômicas. Mas, devido principalmente à natureza cinzenta de meu pai, ser desprovido de qualquer lirismo, duma exemplaridade incapaz, acolchoado no medíocre, sempre nos faltara aquele aproveitamento da vida, aquele gosto pelas felicidades materiais, um vinho bom, uma estação de águas, aquisição de geladeira, coisas assim. Meu pai fora de um bom errado, quase dramático, o puro sangue dos desmancha-prazeres.

Morreu meu pai, sentimos muito, etc. Quando chegamos nas proximidades do Natal, eu já estava que não podia mais para afastar aquela memória obstruente do morto, que parecia ter sistematizado pra sempre a obrigação de uma lembrança dolorosa em cada almoço, em cada gesto mínimo da família. Uma vez que eu sugerira a mamãe a ideia dela ir ver uma fita no cinema, o que resultou foram lágrimas. Onde se viu ir ao cinema, de luto pesado! A dor já estava sendo cultivada pelas aparências, e eu, que sempre gostara apenas regularmente de meu pai, mais por instinto de filho que por espontaneidade de amor, me via a ponto de aborrecer o bom do morto. 

Foi decerto por isso que me nasceu, esta sim, espontaneamente, a ideia de fazer uma das minhas chamadas "loucuras". Essa fora aliás, e desde muito cedo, a minha esplêndida conquista contra o ambiente familiar. Desde cedinho, desde os tempos de ginásio, em que arranjava regularmente uma reprovação todos os anos; desde os beijos às escondidas, numa prima, aos dez anos, descoberto por Tia Velha, uma detestável de tia; e principalmente desde as lições que dei ou recebi; não sei, duma criada de parentes: eu consegui no reformatório do lar e na vasta parentagem, a fama conciliatória de "louco". "É doido, coitado!" falavam. Meus pais falavam com certa tristeza condescendente, o resto da parentagem buscando exemplo para os filhos e provavelmente com aquele prazer dos que se convencem de alguma superioridade. Não tinham doidos entre os filhos. Pois foi o que me salvou, essa fama. Fiz tudo o que a vida me apresentou e o meu ser exigia para se realizar com integridade. E me deixaram fazer tudo, porque eu era doido, coitado. Resultou disso uma existência sem complexos, de que não posso me queixar em nada.

Era costume sempre, na família, a ceia de Natal. Ceia reles, já se imagina: ceia tipo meu pai, castanhas, figos, passas, depois da Missa do Galo. Empanturrados de amêndoas e nozes (quanto discutimos os três manos por causa do quebra-nozes...), empanturrados de castanhas e monotonias, e a gente se abraçava e ia pra cama. Foi lembrando isso que arrebentei com uma das minhas "loucuras":

-- Bom, no Natal, quero comer peru. Houve um desses espantos que ninguém não imagina. Logo minha tia solteirona e santa, que morava conosco, advertiu que não podíamos convidar ninguém por causa do luto.

-- Mas quem falou de convidar ninguém! Essa mania... Quando é que a gente já comeu peru em nossa vida! Peru aqui em casa é parto de festa, vem toda essa gente do diabo...

-- Meu filho, não fale assim...

-- Pois falo, pronto!

E descarreguei minha gelada indiferença pela nossa parentagem infinita, diz-que vinha de bandeirantes, que bem me importa! Era mesmo o momento pra desenvolver minha teoria de doido, coitado, não perdi a ocasião. Me deu de supetão uma ternura imensa por mamãe e titia, minhas duas mães, três com minha irmã, as três mães que sempre me divinizaram a vida. Era sempre aquilo: vinha aniversário de alguém e só então faziam peru naquela casa. Peru era prato de festa: uma imundície de parentes já preparados pela tradição, invadiam a casa por causa do peru, das empadinhas, e dos doces. Minhas três mães, três dias antes já não sabiam da vida senão trabalhar, trabalhar no preparo de doces e frios finíssimos de bem feitos, a parentagem devorava tudo e inda levava embrulhinhos pros que não tinham podido vir. As minhas três mães mal podiam de exaustas. Do peru, só no enterro dos ossos, no dia seguinte, é que mamãe com titia inda provavam um naco de perna, vago, escuro, perdido no arroz alvo. E isso mesmo era mamãe quer servia, catava tudo pro velho e pros filhos. Na verdade ninguém sabia de fato o que era peru em nossa casa, peru resto de festa.

Não, não se convidava ninguém, era um peru pra nós, cinco pessoas. E havia de ser com duas farofas, a gorda com os miúdos,e  a seca, douradinha, com bastante manteiga. Queria o papo recheado só com a farofa gorda, em que havíamos de ajuntar ameixa preta, nozes e um cálice de Xerez, como aprendera na casa de Rose, muito minha companheira. Está claro que omiti onde aprendera a receita, mas todos desconfiaram. E ficaram logo naquele ar de incenso assoprado, se não seria tentação do Dianho aproveitar receita tão gostosa. E cerveja bem gelada, eu garantia quase gritando. (...)

Quando acabei meus projetos, notei bem, todos estavam felicíssimos, num desejo danado de fazer aquela loucura em que eu estourava. Bem que sabiam, era loucura sim, mas todos se faziam imaginar que eu sozinho é que estava desejando muito aquilo e havia jeito fácil de empurrarem pra cima de mim a culpa de seus desejos enormes. Sorriam se entreolhando, tímidos como pombas desgarradas, até que minha irmã resolveu o consentimento geral:

-- É louco mesmo!

Comprou-se o peru, fez-se o peru, etc. E depois de uma Missa do Galo bem mal rezada, se deu o nosso maravilhoso Natal. Fora engraçado: assim que me lembrara de que finalmente ia fazer mamãe comer peru, não fizera outra coisa aqueles dias que pensar nela, sentir ternura por ela, amar minha velhinha adorada. E meus manos também, estavam no mesmo ritmo violento de amor, todos denominados pela felicidade nova que o peru vinha imprimindo na família. De modo que, ainda disfarçando as coisas, deixei muito sossegado que mamãe cortasse todo o peito do peru. Um momento aliás, ela parou, feito fatias um dos lados do peito da ave, não resistindo àquelas leis da economia que sempre a tinha entorpecido numa quase pobreza sem razão.

-- Não senhora, corte inteiro! Só eu como tudo isso!

Era mentira. O amor familiar estava por tal forma incandescente em mim, que até era capaz de comer pouco, só pra que os outros quatro comessem demais. E o diapasão dos outros era o mesmo. Aquele peru comido a sós, redescobria em cada um o que a cotidianidade abafara por completo, amor, paixão de mãe, paixão de filhos. Deus me perdoe mas estou pensando em Jesus...

Naquela casa de burgueses bem modestos, estava se realizando um milagre digno do Natal de um Deus. O peito do peru ficou inteiramente reduzido a fatias amplas.

"É louco mesmo"! pois por que havia de servir, se sempre mamãe servira naquela casa! Entre risos, os grandes pratos cheios foram passados pra mim e principiei uma distribuição heróica, enquanto mandava meu mano servir a cerveja. Tomei conta logo dum pedaço admirável da "casca", cheio de gordura e pus no prato. E depois vastas fatias brancas. A voz severizada de mamãe cortou o espaço angustiado com que todos aspiravam pela sua parte no peru:

-- Se lembre de seus manos, Juca!

Quando que ela havia de imaginar, a pobre! que aquele era o prato dela, da Mãe, da minha amiga maltratada, que sabia da Rose, que sabia meus crimes, a que só lembrava de comunicar o que fazia sofrer! O prato ficou sublime.

-- Mamãe, este é o da senhora! Não! não passe não!

Foi quando ela não pode mais com tanta comoção e principiou chorando. Minha tia também, logo percebendo que o novo prato sublime seria o dela, entrou no refrão das lágrimas. E minha irmã, que jamais viu lágrimas sem abrir a torneirinha também, se esparramou no choro. Então principiei dizendo muitos desaforos pra não chorar também, tinha dezenove anos... Diabo de família besta que via peru e chorava! coisas assim. 

ANDRADE, Mário de. Contos Novos. Apud. SIQUEIRA E SILVA, Antônio de, e BERTOLINI, Rafael. Apostila Língua Portuguesa -- Novo Ensino Médio -- Volume único -- Curso Completo. São Paulo. IBEP, [2003], p. 194-5. 

Diploma Não é Solução

Vou confessar um pecado: às vezes, faço maldades. Mas não faço por mal. Faço o que faziam os mestres zen com seus "koans". "Koans" eram rasteiras que os mestres passavam no pensamento dos discípulos. Eles sabiam que só se aprende o novo quando as certezas velhas caem. E acontece que eu gosto de passar rasteiras em certezas de jovens e de velhos...

Pois o que eu faço é o seguinte. Lá estão os jovens nos semáforos, de cabeças raspadas e caras pintadas, na maior alegria, celebrando o fato de haverem passado no vestibular. Estão pedindo para a festa! Eu paro o carro, abro a janela e na maior seriedade digo: "Não vou dar dinheiro. Mas vou dar um conselho. Sou professor emérito da Unicamp. O conselho é este: salvem-se enquanto é tempo!". Ai o sinal fica verde e eu continuo.

"Mas que desmancha-prazeres você é!", vocês me dirão. É verdade. Desmancha-prazeres. Prazeres inocentes baseados no engano. Porque aquela alegria toda se deve precisamente a isto: eles estão enganados.

Estão alegres porque acreditam que a universidade é a chave do mundo. Acabaram de chegar ao último patamar. As celebrações têm o mesmo sentido que os eventos iniciáticos -- nas culturas ditas primitivas, as provas a que têm de se submeter os jovens que passaram pela puberdade. Passadas as provas e os seus sofrimentos, os jovens deixaram de ser crianças. Agora são adultos, com todos os seus direitos e deveres. Podem assentar-se na roda dos homens. Assim como os nossos jovens agora podem dizer: "Deixei o cursinho. Estou na universidade".

Houve um tempo em que as celebrações eram justas. Isso foi há muito tempo, quando eu era jovem. Naqueles tempos, um diploma universitário era garantia de trabalho. Os pais se davam como prontos para morrer quando uma destas coisas acontecia: 1) a filha se casava. Isso garantia o seu sustento pelo resto da vida; 2) a filha tirava o diploma de normalista. Isso garantia o seu sustento caso não casasse; 3) o filho entrava para o Banco Brasil; 4) o filho tirava diploma.

O diploma era mais que garantia de emprego. Era um atestado de nobreza. Quem tirava diploma não precisava trabalhar com as mãos, como os mecânicos, pedreiros e carpinteiros, que tinham mãos rudes e sujas.

Para provar para todo mundo que não trabalhava com as mãos, os diplomados tratavam de pôr no dedo um anel com pedra colorida. Havia pedras para todas as profissões: médicos, advogados, músicos engenheiros. Até os bispos tinham suas pedras.

(Ah! Ia me esquecendo: os pais também se davam como prontos para morrer quando o filho entrava para o seminário para ser padre -- aos 45 anos seria bispo -- ou para o exército para ser oficial -- aos 45 anos seria general.)

Essa ilusão continua a morar na cabeça dos pais e é introduzida na cabeça dos filhos desde pequenos. Profissão honrosa é profissão que tem diploma universitário. Profissão rendosa é a que tem diploma universitário. Cria-se, então, a fantasia de que as únicas opções de profissão são aquelas oferecidas pelas universidades.

Quando se pergunta a um jovem "O que é que você vai fazer?", o sentido dessa pergunta é "Quando você for preencher os formulários do vestibular, qual das opções oferecidas você vai escolher?" E as opções não oferecidas? Haverá alternativas de trabalho que não se encontram nos formulários de vestibular?

Como todos os pais querem que seus filhos entrem na universidade e (quase) todos os jovens querem entrar na universidade, configura-se um mercado imenso, mas imenso mesmo, de pessoas desejosas de diploma e prontas a pagar o preço. Enquanto houver jovens que não passam nos vestibulares das universidades do Estado, haverá mercado para a criação de universidades particulares. É um bom negócio.

Alegria na entrada. Tristeza ao sair. Forma-se, então, a multidão de jovens com diploma na mão, mas que não conseguem arranjar emprego. Por uma razão aritmética: o número de diplomas é muitas vezes maior que o número de empregos.

Já sugeri que os jovens que entram na universidade deveriam aprender, junto com o curso "nobre" que frequentam, um ofício: marceneiro, mecânico, cozinheiro, jardineiro, técnico de computador, eletricista, encanador, descupinizador, motorista de trator... O rol de ofícios possíveis é imenso. Pena que, nas escolas, as crianças e os jovens não sejam informados sobre essas alternativas, por vezes mais felizes e mais rendosas.

Tive um amigo professor que foi guindado, contra a sua vontade, à posição de reitor de um grande colégio americano no interior de Minas. Ele odiava essa posição porque era obrigado a fazer discursos. Um dia ele desapareceu sem explicações. Voltou com a família para o seu país, os Estados Unidos. Tempos depois, encontrei um amigo comum e perguntei: "Como vai o Fulano?". Respondeu-me: "Felicíssimo. É motorista de um caminhão gigantesco que cruza o país!".

Alves, Rubens. Diploma não é Solução. Folha de São Paulo, 25 de maio de 2004.

ERA UMA VEZ

Antes de chegar ao bar, Era Uma Vez tirou os óculos. O sereno caía e ele não enxergava.

Havia decidido não pensar em nada naquela noite. Estava próximo ao bar.

Começou a se perguntar por que os seres humanos não podem guardar momentos.

Chegou ao bar e começou a olhar o ambiente.

Não tinha nada para fazer ali.

Nunca havia feito amizade com ninguém fora de sua família.

Cadeiras cheias de carne morta, sonhadores de um futuro agora já primitivo.

Voltou para o ponto, ato contínuo, notou que entre a placa de ferro e o ponto havia duas teias de aranha.

Uma teia era inclinada para cima, a outra para baixo.

No meio, a pequena aranha.

As teias pareciam ser feitas de diamante devido ao sereno que nelas caía.

O ônibus chegou, Era Uma Vez entrou rapidamente, chegou em casa, sentou no sofá e sentiu falta do brilho da teia, pensar nisso doía demais.

Não conseguia parar de pensar.

Abriu a geladeira, pegou um cubo de gelo, foi para a sala e arremessou-o contra a parede. Viu o brilho por alguns instantes, era quase o mesmo brilho que havia visto na teia.

Correu para a geladeira, pegou a bandeja de gelo, foi para a sala novamente, começou a arremessar um a um os cubos de gelo na parede, via o brilho e queria ver de novo, e de novo, e de novo...

O chão da sala já se encontrava encharcado.

Para Era Uma Vez nenhum momento era como o primeiro, satisfação prorrogada, mas não era a mesma coisa, o primeiro ato foi o único.

Passadas  algumas horas, pegou um balde de tinta e começou a pintar o lugar onde o primeiro cubo havia se quebrado.

Onde o primeiro brilho teve vida. 

Começou a se perguntar por que os seres humanos não podem guardar momentos.

E logo tinha pintado toda a sala, a cozinha, e logo jogava tinta nos móveis, e via o brilho por alguns segundos.

O momento tinha sido preservado.

Mas havia outros momentos.

Nunca podia parar.

Fotos, filmagens, anotações, imagens, lembranças, coisas que arquivamos em nós mesmos.

Os momentos fugiam.

Não era o brilho que Era Uma Vez procurava.

Não eram os momentos bons.

Naquela noite, dormiu como uma criança após ouvir um linda história de alguém que ele ainda não conhecia. 

Acordou cedo e foi para o bar novamente.

Chegou e todos ficaram olhando para aquele homem com uma picareta na mão.

Começou a cavar em volta do ponto de ônibus.

Conseguiu tirar e o colocou nas costas.

Chegou em casa e deitou o ponto no meio da sala.

A teia estava pendurada nele.

Deitou do lado do poste e ficou olhando fixamente para a teia.

Ferrez. Ninguém é Inocente em São Paulo, p.45  

Ladrões

Navegava Alexandre em uma poderosa armada pelo mar Eritreu a conquistar a Índia: e como fosse trazido à sua presença um pirata, que por ali andava, roubando os pescadores, repreendeu-o muito Alexandre de andar em tão mau ofício: porém ele, que não era medroso nem lerdo, respondeu assim: Basta, senhor que eu, porque roubo em uma barca, sou ladrão, e vós, porque roubais em uma armada, sois imperador? Assim é. O roubar pouco é culpa, o roubar muito é grandeza: o roubar com pouco poder faz os piratas, o roubar com muito, os Alexandres (...)

O ladrão que furta para comer, não vai nem leva ao inferno: os que não só vão, mas levam, de que eu trato, são outros ladrões de maior calibre e de mais alta esfera; os quais debaixo do mesmo nome e do mesmo predicamento distingue muito bem São Basílio Magno. Não só são ladrões, diz o santo, os que cortam bolsas, ou espreitam o que se vão banhar para lhes colher a roupa, os ladrões que mais própria e dignamente merecem este título, são aqueles a quem os reis encomendam os exércitos e legiões ou o governo das províncias, ou a administração das cidades, os quais já com manha, já com força roubam e despojam os povos. Os outros ladrões roubam um homem, estes roubam cidades e reinos; os outros furtam debaixo do seu risco, estes sem temor nem perigo; os outros, se furtam, são enforcados, estes furtam e enforcam. 

Diógenes, que tudo via com mais aguda vista que os outros homens, viu que uma grande tropa de varas e ministros de justiça levavam a enforcar ladrões, e começou a bradar: Lá vão os ladrões grandes a enforcar os pequenos. ditosa Grécia que tinha tal pregador! E mais ditosas as outras nações, se nelas não padecera a justiça as mesmas afrontas. Quantas vezes se viu em Roma ir a enforcar um ladrão por ter roubado uma província. E quantos ladrões teriam enforcado estes mesmos ladrões triunfantes. 

VIEIRA, Antônio. Sermões. Apud. SIQUEIRA E SILVA, Antônio de; e BERTOLIN, Rafael. Apostila Língua Portuguesa -- Novo Ensino Médio -- Volume único -- Curso Completo. São Paulo. IBEP, [2003], p. 62-63

NOTAS DE RODAPÉ
Alexandre: Alexandre Magno, da Macedônia
Diógenes: Filósofo grego            

Estamos vivendo uma violência que está nos forçando a nos matar


A gente que está na luta está acostumado a gritar para ser ouvido, no hospital, pela polícia, na favela. Enfim, a nossa vida é sempre no grito. Acho que a gente já nasce gritando por isso. Queria agradecer o mandato que a gente defende com muita tranquilidade, com muita gratidão porque sempre esteve ao nosso lado sempre que a gente pediu, não só a quem trabalha no mandato, mas também é o Marcelo que sempre a gente precisou e que houve a possibilidade dele estar presente, ele sempre esteve. O mandato sempre esteve aberto, não só para minha pessoa, mas para qualquer morador que a gente enviasse sendo Borel, sendo de alguma Favela da Grande Tijuca ou não, que a gente enviasse por alguma necessidade mais urgente ou situação difícil de violência, enfim a gente pode contar e isso é muito bom, né.

É bom essa presença toda no prédio. A gente tem fome de ocupar os espaços. Ocupar os espaços que são nossos, mas que nos ensinaram que não eram nossos, que não eram pra nós. Então é muito bom quando a gente vê essa fluência de pessoas em espaços como esse a gente entende que é muito bacana. E é bom a gente ter isso mesmo. Tá junto, tá perto. A gente precisa dessa energia.

Dizer que é muito bom tá aqui, até porque embora sendo aliados e amigos. Todos muitos queridos, todos na luta, a gente vai vendo reproduzindo dentro dos nossos espaços de discussão o layout da sociedade brasileira, quer dizer três homens brancos, uma mulher pobre, preta, negra, favelada. Enfim, ainda sendo tolhida na sua fala, porque a minha companheira está ali dizendo: “Fala pouco! Fala pouco”! E é outra negra. Então realmente é a conformação do que é realmente a sociedade brasileira: o pobre oprimindo o outro pobre. Quer dizer, não fala muito não. Geralmente pobre fala isto para outro pobre: Não fala muito não porque se não vai sobrar para todo mundo! Então fica quieto. Né. Mas, não adianta Renata Trajano [companheira]. Não vem com essa não. 

Então, assim. Primeiro dizer... Pobre sempre chega atrasado porque pegou trânsito, enfim. Mas, dizer que é muito angustiante tá aqui. Primeiro angustiante porque é muito difícil pra mim. É engraçado, a pessoa diz assim. Quando a gente está entre amigos, pessoas conhecidas, a gente fica mais a vontade porque se a gente falar uma besteira o amigo finge que não ouviu, ou então dá uma zoada, e fica tudo bem. Pra mim é muito difícil falar pra amigos e pessoas tão importante. Pessoas que estão na luta a mais tempo que eu, um pouco menos, ou que tão no mesmo tempo. É muito difícil falar porque parece que tudo que a gente vai falar já foi dito. Tudo que a gente vai falar é redundante. Mas, eu também entendo que a redundância é importante porque enquanto a gente não resolve as coisas, as mesmas coisas as mesmas verdades ficam sendo ditas até que a gente venha a exaurir a necessidade de dizê-las. Então a gente vai continuar dizendo. Mas, é muito angustiante. É angustiante ter que falar. É angustiante ter que tá aqui discutindo militarização da nossa vida cotidiana. Discutir militarização de cultura, discutir militarização de vida particular. O que há de mais precioso para nós é o que? É a nossa... a nossa individualidade, o lugar em que a gente vive. É a nossa casa. 

Então, eu até estava brincando ontem porque uma das minhas amigas é casada com um policial da UPP, o cara super bacana e tal, uma amiga, apesar dele. E aí, ela nasceu na favela, foi criado na favela. Saiu depois, o pai se formou, conseguiu um trabalho melhor, uma vida melhor, ele saiu da favela. Mas, mora na Tijuca, enfim. E aí eu falei, bom, brincando: Daqui a pouco vamos ter um soldado em casa, para cada um de nós, enfim. Porque cada vez a sociedade clama por mais polícia. É impressionante como tudo se resolve com polícia. Você ouve... Qualquer problema que acontece, não tem que ter mais policiamento, tem que ter mais “policialização”, mais armamento. Então, a gente naquela angústia de pensar nesse controle cotidiano que a gente vem sofrendo ha seis anos (início das UPPs). Caminhamos para sete anos de ocupação militar, de controle militar da nossa vida cotidiana nas favelas. Concomitantemente a gente caminha para a negação do nosso espaço que é a cidade, esse espaço para nós muito caro, muito querido que é a favela, o nosso espaço de identidade. Terminamos uma pesquisa em três favelas. Grandes favelas do Rio de Janeiro pela Fiocruz, pela UFTM, pelo Laboratório Territorial de Manguinhos, fazendo um levantamento dos impactos do PAC, nas determinantes sociais de saúde, e a gente vai percebendo como nós estamos sendo exterminados. E a gente não está morrendo só de uma violência produzida por arma de fogo. A gente tá morrendo por uma violência que tá levando a gente a se matar. A nós mesmos nos violentarmos, e a gente fica pensando que tragédia nós estamos vivendo.

Nosso querido companheiro João Ricardo falou. É claro, eu estava conversando com a Marina, é muito importante que a gente passe a limpo esse período da nossa história. Isso que fez parte do que a gente é como brasileiro, como nação, como povo que com uma democracia tão jovem, tão novinha, ainda precisando ser mais burilada. A gente tem uma democracia tão recente, ainda tá aprendendo a como viver nessa democracia. Mas, pra nós negros, a gente nunca conseguiu viver essa plenitude da democracia. A gente nunca conseguiu viver isso. A gente é exterminado literalmente, a gente vive um processo de extermínio. São relatórios da Comissão de Direitos Humanos, são Mapas da Violência, são pesquisas acadêmicas, são levantamentos internacionais. A gente tem uma série de organizações de instituições de mecanismos de defesa de direitos humanos, agente de mecanismos de coleta de dados, e a gente tá sempre morrendo. A gente está sempre sendo assassinado. É uma tragédia o que a gente vive nesse país.

E as pessoas não tem o mínimo pudor de falar coisas hediondas. A gente teve um tempo atrás uma declaração do secretário estadual de segurança pública, o José Mariano Beltrame, dizendo que a gente precisaria perder uma geração. A gente já perdeu quatro... 

Vamos dizer quem é a gente que perdeu. A gente perdeu quatro, a gente vai perder mais uma. A gente tem que perder mais. A gente tem sempre que perder. A gente quem?

A gente tem que começar a dar nome. A gente tá morrendo. A gente tá sendo exterminado. A gente está se violentando. É impressionante quando a gente começa... e é muito doloroso quando a gente começa a se... a ficar cara a cara com esses dados. Se é doloroso para homens brancos, mulheres brancas, tá muito mais doloroso pra gente que além de ter que ser confrontado pelos dados frios e duros dos números, a gente é confrontado de verdade. A gente vive! A gente vive isso que a gente mensura. A gente vive isso que a gente coleta. A gente vive. É muito difícil.

É complicado, eu não quero mais participar de mesas... É muito complicado para mim. está aqui [choro]. É muito difícil porque as pessoas tem a gente como referência, e os casos chegam pra gente, e parece que a gente não consegue fazer nada. E a gente... eu cansei, não vou ligar mais para Mariete... não vou mais, porque a gente não consegue. Porque também os companheiros que estão aqui a gente sabe a conformação desta casa é cada vez mais contra a gente, e a gente fica pensando: o que a gente vai fazer? A gente chora. Eu acho muito legal, a gente tem que chorar mesmo porque aí a gente busca mais força.

Então quer dizer, é a nossa lágrima e é a lágrima de quem tá junto com a gente que não pode tá aqui falando. E a gente pensa em quem sempre tá ganhando, né; quem sempre ganhou; quem nunca perdeu, e quem nunca vai perder, até quando há perda para todos. Quer dizer, todos não, né. A gente sabe quem sempre perde, e a convergência de poderes que sempre ganha. O poder armado, seja ele oficial, seja o poder das milícias como muito bem coloca o Marcelo e outros companheiros na sua luta que vivem nessas áreas, sempre ganham, sempre ganham, e a gente sempre perde.

A gente perde amigos, a gente perde irmãos, a gente perde famílias, amigos de amigos, a gente tá sempre perdendo. E aí a gente ouve o Guilherme [Boulos] dizendo das jornadas de junho, né[...] que marcam um momento bacana de retomada da luta pela democracia radical, por uma plenitude de direitos, por um estado democrático de direito de fato, por um Brasil real que viva o que o Brasil oficial vive, né; alguma parte que o Brasil oficial vive porque também é uma parte muito seleta. É que o Brasil real possa viver essa plenitude que o Estado democrático de direito versa pra nós. E a gente, quando a favela se coloca junto com quem tá na rua nas jornadas de junho, a gente começa a ouvir os boatos. Quer dizer, primeiro começa a dizer o seguinte, os traficantes da Cidade de Deus estão... e aí, estão infiltrados nas manifestações. Então vamos acirrar a violência policial e muita gente achou bacana porque os filhos da classe média começaram a experimentar com alguma regularidade no decorrer das manifestações o que os jovens favelados já experimentam com uma frequência, sem interrupção, sendo que eles experimentam desde que nascem e consequentemente as suas famílias e aí também eu quero, eu sei que tem familiares de policiais também, outro dia eu estava vendo uma matéria sobre os policiais mutilados, estão afastados, e falas muito apaixonadas em relação à profissão, a defesa da sociedade, né. Uma fala muito apaixonada pela corporação e a gente vai vendo o gradiente, né. Pardos e negros, mutilados, esquecidos, e aí nisso, as suas esposas e os filhos esquecidos, e o sonho que não vai acontecer nunca mais de poder retornar e defender a sociedade. E a gente não vai se dando conta de que nós estamos nos matando uns aos outros, que a gente tá sendo uma parte cada vez mais infeliz em todos os resultados tanto na ação quanto com quem sofre essa ação de violência e como eu estava dizendo quando a gente que nunca dormiu e foi o grande mote das manifestações, se o gigante acordou, se o povo acordou, a favela nunca dormiu e como eu dizia, as pessoas já gostando até. Imagina, as pessoas gostando de ver os filhos da classe média sofrerem aquela violência porque pelo menos agora eles vão acreditar e vão ouvir e vão entender que na favela a bala não é de borracha, a bala é de verdade. Que não tem tiro de borracha; tem tiro de fuzil, mas a criminalização contra a favela começou e continuou, quer dizer, começou. Foi tomando novas nuances, e aí as organizações de favela foram começando a serem criminalizadas. Além da gente ser sistematicamente silenciado, e desqualificado, somos desqualificados na nossa luta também.

Então esses coletivos de favela de alguma forma estão seno financiados pelo tráfico pra poder descerem. Como é? Essa gente não tem uma capacidade intelectual pra se organizar e ir pra manifestação na Presidente Vargas. Como pode? Não, só pode está sendo cooptados pelo tráfico, pagas pelo tráfico, miseravelmente pagas, porque eu vou te dizer, pagar 250 reais pra levar tiro, porrada na Presidente Vargas, 250 reais é muito pouco.

E aí começa sistematicamente a criminalizar as organizações de favela e até a fatídica lista, enfim, das organizações risíveis, até algumas, mas é uma realidade, a gente não sabe o que tá sendo construído à revelia de nós.

Quando a gente ouve como eu ouvi um lutador pela causa da habitação da moradia, da questão fundiária como o dr. Miguel Baldrez dizer que a gente não pode confiar no judiciário, como que eu vou confiar. Eu fico assim o quê que a gente vai fazer? A gente vai confiar em quem? É realmente como a gente ouviu sábado no documentário, é confiar na providência divina, é como continuar confiando. Quem acredita em Deus, vai continuar acreditando na providência divina. Mas, uma coisa a gente não pode deixar de fazer. A gente não pode deixar de lutar. A gente dá uma parada, uma parada estratégica. Os atletas param estrategicamente, vão recuperar suas forças pra gente retornar a luta. E a gente vai vendo, e a gente vai ficando cansado porque são os mesmos rostos. É muito difícil também os jovens que se colocam. Existem jovens como o Raul, no Alemão; meu filho no Boréu, e outros jovens que são importantíssimos hoje nessa resistência. Jovens inteligentíssimos, extremamente capazes, potências que tão fazendo, mas que como se colocam muito mais pelos arroubos da juventude mesmo, a juventude não tem medo, então a gente teme por eles e é muito difícil a gente incentivar. A gente tem que continuar caminhando, continuar gritando, continuar lutando como a gente sempre fez. Choramos daqui, paramos estrategicamente dali e continuar gritando.

Se encontrando; a gente precisa se encontra mais. É muito difícil, mas a gente precisa se encontrar mais. A gente precisa continuar discutindo e se apropriando desse espaço. Muitos vão sair feridos dessa luta, muitos vão desistir, muitos vão morrer. Ahn, isso faz parte! A gente vive todos os dias com uma espada na cabeça. É esse o Estado em que a gente vive, é essa tragédia, tragédia assim que a gente tem que guardar muito bem o que a gente tá falando as devidas proporções, tragédia pra uma parcela da população que sempre viveu essa tragédia seja em qualquer regime político que esse país tenha vivido. A gente sempre viveu tragédias: a fome, a miséria, a ausência de política de habitação efetiva, a precariedade, a descontinuidade de políticas, o silenciamento, a desqualificação, o assassinato; assassinato no parto, assassinato nos becos da favela, assassinato na porta do hospital; a gente tá morrendo. Como é que essa sociedade consegue assistir pela televisão um homem negro agonizando na porta do hospital, enfartando na porta do hospital, e depois você muda de canal, come seu belo jantar e vai dormir, até porque amanhã é outro dia. E tragédias como essa acontecem.

A gente não pode perder a nossa humanidade nós que estamos na luta, eu não estou falando, porque quem tá aí fora já perdeu; a gente não poder perder a nossa sensibilidade.

Discurso de Mônica Francisco no lançamento do relatório anual da Comissão de Direitos Humanos na ALERJ (Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=kNthrc-zrvU. Acesso em: 13 dez 2014