Antes de chegar ao bar, Era Uma Vez tirou os óculos. O sereno caía e ele não enxergava.
Havia decidido não pensar em nada naquela noite. Estava próximo ao bar.
Começou a se perguntar por que os seres humanos não podem guardar momentos.
Chegou ao bar e começou a olhar o ambiente.
Não tinha nada para fazer ali.
Nunca havia feito amizade com ninguém fora de sua família.
Cadeiras cheias de carne morta, sonhadores de um futuro agora já primitivo.
Voltou para o ponto, ato contínuo, notou que entre a placa de ferro e o ponto havia duas teias de aranha.
Uma teia era inclinada para cima, a outra para baixo.
No meio, a pequena aranha.
As teias pareciam ser feitas de diamante devido ao sereno que nelas caía.
O ônibus chegou, Era Uma Vez entrou rapidamente, chegou em casa, sentou no sofá e sentiu falta do brilho da teia, pensar nisso doía demais.
Não conseguia parar de pensar.
Abriu a geladeira, pegou um cubo de gelo, foi para a sala e arremessou-o contra a parede. Viu o brilho por alguns instantes, era quase o mesmo brilho que havia visto na teia.
Correu para a geladeira, pegou a bandeja de gelo, foi para a sala novamente, começou a arremessar um a um os cubos de gelo na parede, via o brilho e queria ver de novo, e de novo, e de novo...
O chão da sala já se encontrava encharcado.
Para Era Uma Vez nenhum momento era como o primeiro, satisfação prorrogada, mas não era a mesma coisa, o primeiro ato foi o único.
Passadas algumas horas, pegou um balde de tinta e começou a pintar o lugar onde o primeiro cubo havia se quebrado.
Onde o primeiro brilho teve vida.
Começou a se perguntar por que os seres humanos não podem guardar momentos.
E logo tinha pintado toda a sala, a cozinha, e logo jogava tinta nos móveis, e via o brilho por alguns segundos.
O momento tinha sido preservado.
Mas havia outros momentos.
Nunca podia parar.
Fotos, filmagens, anotações, imagens, lembranças, coisas que arquivamos em nós mesmos.
Os momentos fugiam.
Não era o brilho que Era Uma Vez procurava.
Não eram os momentos bons.
Naquela noite, dormiu como uma criança após ouvir um linda história de alguém que ele ainda não conhecia.
Acordou cedo e foi para o bar novamente.
Chegou e todos ficaram olhando para aquele homem com uma picareta na mão.
Começou a cavar em volta do ponto de ônibus.
Conseguiu tirar e o colocou nas costas.
Chegou em casa e deitou o ponto no meio da sala.
A teia estava pendurada nele.
Deitou do lado do poste e ficou olhando fixamente para a teia.
Ferrez. Ninguém é Inocente em São Paulo, p.45