O texto abaixo é o depoimento de uma mulher que assistiu à
Revolução de 1924.
Quando minha filha tinha seis meses mudei para o Cambuci,
Rua dos Alpes; era uma casa modesta, quse em frente à fábrica onde Umberto
trabalhava. Quando a menina completou um ano, era o dia 4 de julho; eu estava
entrançando o cabelo e prendendo com grampos, para que ficasse armado, porque
ia ao teatro à noite. Minha mãe chegou e disse: “—A cidade está cheia de
soldados de carabina embalada, vai ter uma revolução”. O Umberto não acreditou.
De fato, era a revolução.
Durante e noite, pelas duas horas da madrugada alguém bateu
em todas as portas da Rua dos Alpes: “– Vai explodir o depósito de pólvora lá
do Hospício”. (Esse Hospício devia ser lá na Rua Tabatinguera onde tinha um quartel.)
Imagine crianças, mulheres com bebê, velhos doentes que não podiam andar,
naquela procissão... Eu queria levar os brinquedos de minha filha, bonecas, bichinhos...
Afinal juntei um pouquinho de roupa necessária e com Umberto, minha mãe, a
menina, fomos pela Rua dos Alpes, atravessamos o Largo do Cambuci... e todo o
mundo subindo como uma romaria, naquela madrugada, a Avenida Lins de
Vasconcelos. Fomos para a casa de um amigo e à tarde, vendo tudo sossegado,
voltamos para casa. Mas era de verdade a revolução.
A gente nunca quer sair da casa da gente pra ir pra nenhum
lugar, só quando já não pode ficar mais... acho que todas as pessoas são assim.
Durante o dia, ouvimos os tiros de canhão, eu ia me aguentando e ficando mais
um pouco. Mas quando foi um dia... o tiroteio se cruzava entre os soldados na
Igreja da Glória e os outros, no depósito de pólvora, lá embaixo na Rua
Tabatingüera. Eu morava no meio. Foi a Revolução do Isidoro Dias Lopes.
Cortaram as luzes e de noite os tiros sacudiram a casa... e o barulho do
canhão. Eu só tinha medo de morrer no escuro.
No dia seguinte disse: “—Vou embora, vou de carro de boi,
carroça, mas vou sair daqui.” Os carros, quando saíam na rua, os soldados
pegavam. Meu marido viu um carro parado em nossa rua, na porta de uns amigos, e
pediu o favor que viessem me buscar com a menina. Fui para o Alto da Lapa, na
casa de uma cunhada. Minha mãe foi para Nova Odessa. Quando saía fora de casa
via o clarão, os estrondos.
Uns primos meus acompanharam os revoltosos e um deles
desapareceu, deve ter morrido no combate. Muita gente morreu. Meu marido ficou
em casa; para me ver, entrava na margem do rio Tamanduateí, onde havia uma
calçadinha e andava até o Alto da Lapa. Vinha pelo mesmo caminho.
Quando voltei, minha casa tinha sinais de bala na parede, na
cozinha. Outras casas foram saqueadas.
(BOSI, Ecléa. Lembranças de Dona Alice.
Memória e sociedade; lembranças de velhos. São Paulo: T. A. Queiroz, 1979. p.
64-65. Apud. CAPÍTULO 8: A República Velha: organização política. [S.l.: s.n.,
s.d] p. 119. Texto para Leitura).