Todos deviam ser donos do seu nariz, mas infelizmente isto não acontece. Num país como o Brasil o sonho do nariz próprio continua inalcançável para a maioria. Só uma minoria privilegiada é dona do seu nariz. Poucos sabem que 70% dos brasileiros alugam seu nariz. O Governo vem tentando melhorar a situação através dos financiamentos do para a aquisição do nariz próprio, mas com a correção monetária, reajustes, etc. o pobre acaba pagando pelo nariz muito mais do que pode.
Muitos vivem na ilusão de serem donos do seu nariz e na realidade não são. Mesmo os proprietários de nariz não têm direitos absolutos sobre ele. O nariz é um bem móvel. Qualquer transação envolvendo o nariz depende da fiscalização pública. Você descobre que o nariz não lhe pertence quando, por exemplo, pretende viajar para o exterior. Não há nenhum empecilho para você sair, ao contrário do que se pensa.
– O senhor tem completa liberdade de ir e vir.
–Sem papelada, sem nada? Posso sair quando quiser?
–Exato. Mas sem o nariz, claro.
–Como? Eu sou dono do meu nariz.
–Perdão. Seu nariz é uma concessão do Governo. pertence ao Estado.
– Mas eu não posso viajar sem ele. Somos muito ligados.
– Bem. Para tirar um nariz do país é preciso passaporte, visto de saída, atestado de bons antecedentes, atestados de idologia do nariz... E o depósito compulsório.
– Quanto?
– Os olhos da cara.
Todos os impostos e taxas que você paga ao Governo são pelo uso do nariz. O nariz, na verdade, é a única parte da sua anatomia sobre a qual o Governo tem todo o poder. O Estado não interfere no resto do seu corpo que, no caso de prisão arbitrária, só vai junto porque quer. Foi isso, na opinião de alguns juristas, que tornou o habeas-corpus supérfluo entre nós. E, convenhamos, um habeas-nasalus seria ridículo.
Eu alugo o meu nariz e estou muito satisfeito com ele. Não conheço o proprietário. Pago o aluguel em dia, conservo o nariz em bom estado e não dou ao locador qualquer razão para queixa. Mas, teoricamente, o dono do meu nariz pode reclamá-lo quando quiser. Basta uma denúncia vazia de que eu estou metendo o meu – ou dele, no caso – nariz onde não devo e ele pode reaver o nariz. A situação é irrespirável.
Alguns proprietários de narizes alugados estão sempre vistoriando a sua propriedade. Acordam o locatário no meio da noite para ver como vai o nariz.
– Hum. Deixa ver. Parece bem. Este cravo aqui ao lado...
– Vou espremer amanhã mesmo.
– Você limpa todos os dias?
– Por dentro e por fora.
– Olha aí: os óculos estão deixando marca. Não pode.
– Vou cuidar disto. Agora posso dormir? Estou meio resfriado...
– Que tipo de lenço você tem usado? De papel, espero. Lenço de pano irrita o nariz. Olhe lá, hein?
Alguns contratos de aluguel são extorsivos. Incluem uma cobrança por espirro, taxa-coriza, o diabo.
Existe uma espécie de bolsa do nariz onde os grandes proprietários compram, vendem e trocam seus narizes.
– Tenho um nariz bem grande em Petrópolis. Troco por dois pequenos na Zona Sul.
– Nariz novo. Vendo. Estilo grego.
– Compro um afilado. Qualquer zona ,menos Avenida Farrrapos.
– Vendo um achatado, simpático, amplas narinas, na Independência.
– Reformado, como novo, troco por adunco ou arrebitado.
A questão do nariz reformado é, legalmente, um pouco confusa. Quem é dono do seu nariz pode alterá-lo como quiser, desde que obtenha uma licença da Prefeitura. Um bom Pitanguy. hoje, vale uma fortuna. Mas, quem aluga o seu nariz e quer modifica-lo deve antes consultar o dono.
– Estou pensando em tirar um pouco aqui, estreitar aqui e baixar aqui.
– Impossível. Não poso permitir. A senhora quer diminuir a área total do meu nariz.
– Mas vai ficar um Tônia Carrero perfeito. Vai aumentar o seu valor.
– Sei não... Aumentam os impostos...
–O senhor pode aumentar o aluguel.
– Feito
Os donos do seu nariz têm o poder e não há nada que você possa fazer a respeito. O seu nariz pode ter sido vendido a uma multinacional agora mesmo e você nem sabe.
VERRÍSIMO, Luís Fernando. Apud. LUFT, Celso Pedro. Novo Manual de Português. 9. ed. São Paulo: Globo, 1990, p. 483-485