O cúmulo do absurdo é ver-se um preto nazista causa até mesmo ignorância. Mulato torcendo pela Alemanha é o mesmo que um cachorrinho sacudindo a cauda de contente, as orelhinhas em pé, fazendo festas para o chicote do amo.
Se os brancos da América do Sul, mesmo os dos olhos azuis e pele rósea são considerados pelo germânico da “nova ordem” como mestiços, imagine-se agora um mulato do cabelo arreliado de beço saliente e porros destilando um suor especial úmido. Se os brancos foram ameaçados como pertencendo a uma raça inferior que seria relegada ao desprezo, calcule-se o que não seria dos morenos, dos mulatos e dos pretinhos.
Preto na opinião dos “arianos” do Reich não deve servir sendo para carregar esterco. Pelo que os sul-americanos representam na classificação da pseuda raça superior, deduz-se que um autentico negro deve pertencer, segundo o critério deles a uma escala demasiadamente inferior. Sob o domínio dos nazistas um negro seria reduzido à condição de simples animal doméstico, escolhido para as ocupações mais humilhantes possíveis, voltariam à situação primitiva de cativos encangados aos hotéis para irem servir nas estrebarias dos novos senhores do mundo.
É por isso que preto com ideias nazistas aberra contra a própria natureza. Tem-se a impressão que se trata de um inconsciente que ainda não se libertou dos complexos do cativeiro e viva dominado pela nostalgia da chibata, da senzala, do tronco e da subserviência ao seu rancoroso senhor.
Branco brasileiro com inclinações para servir de escravo aos nazistas é uma baixeza de caráter, é uma indignidade que repugna, mas preto com esses pensamentos é tudo isso e mais alguma coisa.
É um cão pirento lambendo a ponta da bota que o castiga apontando-lhe a porta da rua.
Mulato que torce pela vitória dos totalitários, é preto por fora e por dentro.
Mulato dessa espécie eu não considero como meu irmão.
Mulato nazista é indigno mil vezes da memória da princesa Isabel.
VICENTE, Zé. O Estado do Pará. Quinta Feira, 1 out. 1942.