Guerra do Paraguai


No ano de 1864, Edward Thornton, representante inglês em Buenos Aires, enviou uma carta ao ministro das relações exteriores paraguaio, José Berges de cunho sobre as relações rompidas entre o Paraguai e o Império do Brasil e, “somaticamente”, tentando evitar o início da guerra entre os dois países. Esta carta é uma prova interessante de não interessar a Grã-Bretanha (Inglaterra) uma guerra entre o país guarani e seus vizinhos.

Ao Exmo. sr.

Dom José Berges

Reservada

Buenos Aires, 7 de dezembro de 1864

Meu prezado Senhor e Amigo

Muito agradecido à comunicação dos documentos importantes anexos à sua Nota Oficial de 17p. Não posso deixar de deplorar a necessidade de seu governo, segundo sua opinião, romper as relações de amizade com o Brasil V.E [Vossa Excelência] já conhece meu pensamento sobre esse assunto. Creio que o Brasil, a julgar pelos documentos que vi, tem justos motivos de queixa contra o governo oriental e tem o direito de pedir satisfação pelas ofensas que seus súditos tiveram que aguentar.

Também não tenho o menor motivo para suspeitar que o governo do Brasil tenha a menor intenção de ameaçar a independência da República Oriental do Uruguai. Contudo, devo reconhecer que o governo paraguaio é o melhor juiz do que mais convém à sua pátria e não me é permitido dizer nada contra suas resoluções.

V.E sabe que a Inglaterra também está em atritos com o Brasil, de modo que tanto por esse motivo, como pela falta de instruções de meu governo, não poderia fazer nada de oficial com seu governo; mas particularmente sim, se puder servir no mínimo que seja, para contribuir para a reconciliação dos dois países, espero que V.E não hesite em me utilizar.

Atrevo-me a lembrar a V.E sua promessa de enviar-me alguma informação sobre a quantia total das contas da República [do Paraguai]. Quando V.E tenha um momento para dedicar-se a esse assunto, ficarei imensamente agradecido.

Ao mesmo tempo, suplico a V.E que apresente meus respeitos ao Exmo. Senhor e que tenha a certeza de minha mais alta consideração, com o que tenho a hora de subscrever-me.

De V.E,

O atento servidor

E amigo.

Edward Thornton

Diplomata profissional, Thornton não oferecia seus serviços para restabelecer as relações normais entre o Brasil e o Paraguai, se o governo britânico tivesse interesse em desencadear a guerra. (Argumento do Autor)

(...)

Um dos mais importantes intelectuais paraguaios contemporâneos, Guido Rodríguez Alcalá, faz uma instigante avaliação da figura de Solano López e o compara com Hitler, guardadas as diferenças entre o ditador de uma sociedade rural em relação ao de uma industrializada, como a alemã. Guido Rodríguez Alcalá aponta as coincidências entre ambos.

A semelhança [entre López e Hitler] está na mobilização total para a guerra, na guerra total que ambos travaram, cada qual dentro de suas possibilidades. Creio não ser fora de propósito considerar López um percursor do totalitarismo moderno, encarnado exemplarmente em Hitler-Romantismo, voluntarismo e paranoia definem as personalidades dos tiranos e não é casualidade que o fascismo, ao popularizar-se no Paraguai (na versão criolla), tenha reivindicado a figura de López, o qual foi censurado por suas vítimas e cúmplices. 

DORATIOTO, Francisco. Guerra Maldita: nova história da Guerra do Paraguai. São Paulo: Companhia das Letras, 2002. p. 90-91