CREPÚSCULO NO ROSSIO
Dourada, entre fulgentes cristais de garoa e solidão
Pende a tarde sobre os telhados do Rossio orvalhado
Onde, de repente, descubro a eternidade dos velhos cafés.
Espalhados pelas esquinas do mundo...
(Come chocolates, pequena: Come chocolates!
Olha que não há mais metafísicas no mundo senão chocolates) 
Sim, possa eu sorver também em paz no Rossio
O mormo chocolate
Da minha madurês, sem metafisicas
Enquanto os últimos pássaros orientam ao longe sobre o Tejo
A migração dos ventos outonais. 
Tomo chocolates e olho curioso a multidão que passa
Homens/ universos fechados na angústia que cultuam
Num renovado ritual de fatalidades
E que só revelam, talvez
A hora perplexa do desespero e do coito... 
Pelos velhos cafés decadentes
Acompanho este submisso rebanho humano
No trânsito quotidiano
Rumo aos seu mistério e indevassável enigma
Aí estão os que sonham apenas em ganhar na loteria
Os que nunca hão de ganhar coisa nenhuma
(Sequer o direito ao sonho)
Os que tem a vocação do infarto ou do câncer prematuro
Os que jamais viajarão e serão martirizados a cada dia
Pelos cartazes coloridos das agências de turismo
Os que morrerão em desastres e ganharão manchetes
Certamente exageradas para a insignificância do seu anonimato.
Os neuróticos
Os desesperados, que se auto comovem
Com a banalidade dos amores irrealizados
Os que não se comovem senão com as cotações da bolsa.
Os que poderão ser atropelados daí a minutos
E os humilhados que mercam jornais com voz estrídula.
Jubilosos de poderem vender, aos berros
Um quotidiano de misérias
O anúncio renovado de todas as flagelações do mundo...
Com piedade infinita
Fito, sobretudo a legião atônita dos velhos
De todos aqueles já excessivamente surrados pela vida
E em cuja cara a morte antecipa, na floração das rugas
Um labirinto de rotas pressagas... 
A frente deste pobre café de esquina
Onde um clima de passado resguarda
A eternidade das coisas transitórias
Sob o sol ourescente do poente outonal
Entre espasmos de asma
Vejo também os pálidos meninos de mãos de borboleta
Varões maduros obcecados pela idéia dos milhões impossíveis
Gordas senhoras hipnotizadas pelas vitrinas das confeitarias
Cultivando o desespero de todas as dietas prescritas e adiadas,
Ambulantes
Pederastas
Mendigos
Vendedores de bilhetes
Velhos tocadores de realejo
Jornaleiros
Marinheiros nostálgicos da mulher de cada porto
Flagelados por evocações e doenças venéreas
Mas acima de tudo as moças que passam nas calças coladas
Exibindo o apelo do sexo e da bunda desenhados na malha
E de cujos cabelos soltos a tarde despenca no Tejo
Com um surdo baque de gaivotas feridas. 
Sim, ainda há cafés,
E o chocolate que tomo entre espasmos de asma
Neste momento de quietude e reencontro
Distante de todos os que amo
Ou dos que tantas vezes apenas me enfadam
Este chocolate sabe a própria vida, a partícula
Do tempo que me coube provavelmente por descuido
E que por minutos em mim eterniza
Uma angustia
Um desalento de mãos abandonadas, inúteis
Como as que, de súbito, perderam para sempre a variação dos pianos... 
Ah, a contra facção de todos os símbolos
De todas as palavras que nada transmitem
A não ser a verdade de que cada homem
É um prisioneiro da sua incomunicabilidade... 
No silêncio da minha boca
Sinto que nasce a flor das solidões atávicas
Com o seu vago perfume de prematuros suicídios
E ele que em mim floresceu agora em outro hiato
Entre a carne que quer, e os apelos do mundo
Mas forte sinto na alma um novo apelo
A sensação, talvez, de que há realmente uma alma
Por cujos meandros desliza o crepúsculo com pés sorrateiros
Submersos nas folhas do outono que parte
E que te preservam, ó vide rude e sangrada
De todos os ruídos mecânicos do mundo
De todos os ruídos
De todos...


GOMES, João Carlos Teixeira. Crepúsculo no Rossio. Na Solidão Coletiva de um Café Lisboeta. O Domador. Apud, [GOMES...] Memória das Trevas. pg. 547.